Kae é uma das cidades mais prósperas de Arelon, mas nem sempre foi assim. Elantris era, há dez anos, uma cidade maravilhosa, cheia de magia e encanto não apenas para os elantrinos, seres de incríveis habilidades mágicas, mas também para o povo que os considerava divindades. Quando a shaod (transformação) chegou para a cidade seu povo foi amaldiçoado e a cada nova transformação humana as pessoas atingidas passaram a ser jogadas dentro de suas muralhas esquecidas pela nova sociedade formada e seu novo rei, Iadon.

         O príncipe de Kae, Raoden, é famoso por seu amor pelo povo e seu enfrentamento às políticas de compra de títulos pelos comerciantes, implantadas por seu pai após sua subida ao trono com a queda de Elantris e ascensão de Kae. Raoden espera a chegada de sua noiva, Sarene, de Teod, para afirmar uma aliança política entre os dois reinos defensores do Shu-Korath, como forma de defesa contra o Shu-Dereth, religião extremista e expansionista que cresce em números e influência.

      A terceira narrativa do livro, além das de Raoden e da princesa Sarene, é a do sacerdote Dereth Hrathen que chega à cidade de Kae com a missão de converter o povo em até três meses para evitar a invasão e massacre que forçariam a conversão. A proximidade entre as cidades de Kae e Elantris é incômoda e os habitantes da nova cidade mercante em Arelon tentam esquecer o sofrimento do novo povo elantrino, de forma que a realidade das duas cidades é explorada para que o leitor se depare com o desenvolvimento de cidades novas e as condições encontradas por seus protagonistas ao tomar decisões que afetam centenas.

      “Elantris”, foi o primeiro livro publicado pelo autor Brandon Sanderson, que é famoso por suas séries fantásticas, como “Mistborn – Nascidos da Bruma”, de 2006, e seu mais recente “Coração de Aço”, de 2016. Em cada novo livro escrito Sanderson cria sistemas de magia, de governo e religião que provam criatividade e maestria nos enredos e finais marcados por reviravoltas. No caso de Elantris não é diferente. Em sua primeira criação somos apresentados a doutrinas religiosas que moldam a vontade do povo e que possibilitam o controle comercial e político das cidades de Arelon, especialmente Kae, regida por um governo baseado na riqueza pessoal das famílias aristocráticas comerciantes, que compram seus títulos e apresentam seus cofres ao rei para que sejam mantidos. Ao redor da tensão interna da cidade ainda existe a lembrança dos dias gloriosos de Elantris e da mágica de seus habitantes, capazes de desenhar aons de cura, transporte e outros suficientes para desafiar a supremacia das religiões em voga dez anos após sua queda. Essa magia já não faz mais parte do povo amaldiçoado pela shaod (ou será que faz?), mas desde o princípio do livro demonstra a capacidade criativa de Brandon Sanderson na diversidade dos personagens, tanto principais quanto secundários. Os fiéis companheiros são de extrema importância para o andamento do livro e o processo de construção de lealdades é bem explorado pelo autor no decorrer da trama.

          Até pouco mais da metade do livro os capítulos são separados por narrativa, mesmo que algumas se entrelacem no caminho, diferentemente da parte final, quando de forma brilhante o autor relaciona todos os aspectos e o clímax final acontece. Os conflitos são invitáveis, mas a inteligência e astúcia se provam mais importante do que a força física para resolução dos problemas. Elantris é carregado de espiritualidade, magia e perseverança que tornam a leitura agradável e pouco cansativa, mesmo com suas 576 páginas. O livro é único, mas tranquilamente poderia ter uma continuação, considerando que o desfecho de alguns personagens dá a entender que a história não fecha completamente seu final feliz ideal e alguns personagens ainda carregam questionamentos sobre as narrativas que não foram de encontro às suas. Apesar disso o livro não tem sentimento de “inacabado”, mas de forma graciosa permite ao leitor perceber que nenhuma história realmente tem um final e que os personagens continuam seus caminhos.

            Ótima leitura para os fãs de fantasias ao estilo O senhor dos Anéis, de Tolkien e Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Recomendadíssimo!

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